Sobre Arapongas e Tucanos – Parte II

Serra assume em 2007 e entrega a secretaria da segurança a Marzagão e Malheiros. O próprio governador indicou uma jornalista de confiança para comandar a comunicação social da pasta, uma das áreas mais críticas do governo. O plano já previa a sucessão presidencial de 2010. Mesmo com a ajuda de grande parte da imprensa paulista, a área tinha que ser controlada com mão de ferro para evitar surpresas que atrapalhassem a candidatura de Serra .

Mais esperta que a antecessora, assim que assumiu baixou uma espécie de AI-5 da Segurança Pública. Restrição a acesso a todo tipo de informação (boletins de ocorência, inquéritos policiais, laudos, etc), cerco aos jornalistas que eram críticos ao governo (a lista dos inimigos continuou) , centralização das informações na assessoria, censura a assuntos delicados e a delegados. Em poucos meses, estariam seguindo jornalistas, vasculhando as vidas deles, grampeando, pedindo para demiti-los e até interrogando policiais para tentar descobrir vazamentos. Mas vamos por partes.

Para contextualizar este período, convém lembrar que o delegado geral era Mário Jordão, que assumiu o cargo graças à amizade com Andrea Mattarazzo, na época deixado por Serra com cargo poderoso na Prefeitura de São Paulo.

Você precisa do seu emprego?

A chefona da assessoria colocou um preposto para brigar e se expor com os veículos de comunicação. A tática era a seguinte: tentar anular qualquer denúncia, argumentando com o repórter por telefone para não deixar prova documentada. Os argumentos eram bem agressivos com direito a palavrões, ameaças e intimidações do tipo “você gosta do seu emprego, então esqueça esta denúncia”.

Caso a denúncia ou crítica viesse a público e causasse problemas ao governo, entrava em ação a tropa de choque da comunicação que partia para cima dos superiores do jornalista denunciante, coagindo a demitir o profissional sob pena de pedir para o governo cortar a publicidade oficial. Consta que nenhum jornal cedeu às pressões. O estilo agressivo e explosivo do preposto começou a repercutir nas redações, afinal eram constantes as brigas com jornalistas de jornais, rádios e televisões.

Enquanto ele brigava, a chefe ampliava os negócios da agência de comunicação dela em Perdizes, Lauro fazia o que sabe fazer bem e Marzagão não fazia nada. Jordão tocava a DGP daquele jeitão até que um dia, numa sexta-feira, um advogado chamado Jamil Chockr quase foi morto por um motoqueiro, na Zona Norte de São Paulo. Socorrido por policiais militares, no carro dele foram encontrados envelopes com dinheito dentro. E anotados números e as letras “DP”. Era o pagamento da propina mensal aos distritos policiais da Capital. Jamil era (ou ainda é) um dos maiores capos da jogatina eletrônica em São Paulo. A primeira crise estava instalada. A agenda dele e a papelada encontrada no carro mostravam que a rede de corrupção ia longe, quer dizer, alto.

Para quem é da área, era questão de tempo até que algo acontecesse. Daí foi uma sucessão de denúncias: violação dos computadores de delegados do Dipol, laudos falsos para maquineiros feitos pelo IC, as trapalhadas do Denarc, da PM. As empresas de segurança de Jordão, Youssef e outros. Os jornalistas que denunciavam não tinham trégua. Alguns tiveram a vida devassada. Teve um que foi até seguido pelo pessoal do Dipol. Fizeram campana para porta do jornal e até na casa dele. Queriam descobrir as fontes de tão embaraçosas reportagens. E também queriam descobrir podres do rapaz. Consta que uma ordem de serviço foi emitida pela direção do Dipol para bisbilhotar o repórter.

A escolta do Pinguim

Lauro Malheiros por pouco não foi o Nero da Líbero Badaró. Faltou muito pouco para ele colocar fogo na pasta da Segurança Pública, da qual era o adjunto. Ninguém assume a indicação dele. Há quem diga que foi o ex-procurador-geral Luiz Antonio Marrey. Outros falam que foi o próprio Marzagão. Mas quem conhecia o Lauro já sabia o que poderia acontecer. E aconteceu.

Ex-delegado, filho de advogado conhecido, sobrinho de desembargador, Lauro era o que pode ser chamado de bon vivant. Teve uma curta carreira na Polícia, cujo ápice foi metralhar a casa de uma família vítima de roubo. Furou todo o carro da pobre família. Mas como digno representante da plutocracia paulistana, Laurinho gosta de tudo o de bom e de melhor que a vida pode oferecer: casas, carros, mulheres, iates, uísques. Mas tudo isso custa caro. E para que se preocupar com isso, quando se tem o poder da caneta, da pasta e da polícia nas mãos?

O apetite de Lauro e dos amigos dele, alçados a postos chaves nos departamentos mais importantes e lucrativos da Polícia Civil, gerou uma crise interna na instituição sem precedentes. O adjunto estava cercado de pessoas como Augusto Pena e uma dezena de delegados completamente fora de órbita. A briga interna transbordou para os jornais, rádios e tvs que começaram a receber todo tipo de denúncia, gravação, vídeo e documentos com provas ou indícios a serem investigados contra Laurinho e sua turma. Atento aos movimentos do superior, Jordão deixou o cargo repentinamente. Sabia de algo, já que saiu antes de a bomba estourar.

Depois do carnaval de 2008, um notícia colocou Lauro em evidência. Aquele obscuro adjunto da segurança estava no meio de um escândalo. Acusado de usar escolta da PM para vigiar a ex-mulher e a filha durante o carnval no Guarujá, Lauro ficou alguns dias no noticiário se explicando. Consta que a primeira reação da comunicação da secretaria foi tentar impedir as reportagens argumentando que ele tinha direito (o que não tinha); depois partiram para a agressão aos jornalistas envolvidos diretamente nas reportagens e por fim pediram as cabeças de pelo menos três jornalistas de um jornal e uma emissora de televisão.

Mas o episódio mais grotesco foi o interrogatório da escolta. Chamada às pressas ao prédio da Líbero Badaró, a assessora reuniu-se com o chefe da assessoria militar num auditório no térreo. De acordo com fontes deste Bacalhau, os cinquenta policiais militares que trabalhavam na escolta do secretário foram interrogados pela jornalista. Queriam saber quem tinha vazado as informações e documentos para a imprensa. Não conseguiu descobrir. Eles foram ameaçados e removidos. Até as secretárias foram afastadas. Os jornalistas foram seguidos por uma semana para tentar descobrir quem eram as fontes. Tiveram as vidas vasculhadas e dizem até que foram grampeados. Não há confirmação, mas como diz a Veja ou a TV Globo: não podemos confirmar, mas também não podemos descartar que existiram. E é papel de jornalista interrogar pm?

Enfim, foi como se a caixa de pandora tivesse sido aberta. Toda semana era um escândalo diferente. De acordo com gente que trabalhava no gabinete naquela época, Lauro foi a uma casa de diversões de adultos e de tão paranóico, achava que tinha sido seguido por algum jornalista. Saiu correndo do lugar. Disse a assessores próximos que ia dar um tiro no repórter. E mandou o recado para alguns que achava que estavam perseguindo ele. O recado era para não segui-lo, porque a escolta dele poderia atirar no jornalista, achando que era um ladrão. Pena que o jornalista não o seguiu e não o fotografou.

Nesta época, a SS da Badaró tinha mesmo muito trabalho para tentar censurar e conter os estragos que a equipe fazia. O filho de Marzagão, aquele que foi flagrado fraudando a prova da OAB, foi surfar no Guarujá e levou um monte de escoltas. Uma carta com a denúncia foi parar na Assembléia. Teve também o escândalo do investigador Pena, que fazia a recolha do Lauro, e acabou preso; depois os investigadores expulsos que compraram a volta aos cargos; as licitações; e por fim a já famosa gravação do primo de Lauro, o advogado Celso Valente, falando o que ele e o primo estavam fazendo para ficar ricos, da mesma maneira que os antecessores fizeram. Lauro caiu no dia seguinte.

Marzagão ainda iria agonizar no cargo alguns meses. Passaram a perseguir policiais civis e militares que julgavam inimigos. Usaram de todos os meios lícitos e ilícitos de coação, como as absurdas e ilegais transferências e inquéritos abertos contra o delegado Guerra por conta do blog Flit Paralisante. E vinha denúncia de todos os lados. Mas o fim melacólico de Marzagão aconteceu quando ordenou que a Polícia Militar agredisse policiais civis e parentes deles que faziam manifestação (justa) por melhorias salariais e na carreira. O substituto de Jordão, Maurício Freire, entrou para a história da policia civil como um líder covarde e fraco que dobrou-se aos militares para se segurar na cadeira. Ele foi o Vichy da Brigadeiro Tobias.

Nos próximos dias, a terceira e ultima parte da trilogia. Marzagão cai e assume Ferreira Pinto. A chefona continua. E as bisbilhotagens também.

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1 comentário

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Uma resposta para “Sobre Arapongas e Tucanos – Parte II

  1. Imbroglione:

    Obrigado pela menção; verdadeiramente a supressão do Flit dos domínios do Google foi montada na Secretaria de Segurança Pública.

    Em três oportunidades diferentes, sempre figurando, nessas intervenções, os Delegados do DEIC.

    Em uma delas figurando o Yussef como vítima.

    Em janeiro, quando da invasiva busca e apreensão de computadores e mídias em nossa residência, a iniciativa aparentemente privada, certamente, buscou esconder interesses políticos do grupo de delegados que tem a eleição de Geraldo Alckmin como a panacéia da patifaria.

    Com ele continuaremos uma Polícia comandada por “empresários” que para manutenção do “bico” , do tipo que protagoniza atentados filmando para os amigos interrogatório de investigado; ainda com inglórios desafabos do tipo: “sou o incompetente que vai de por na cadeia” ( “sic” )…

    Datena ajuda nóis aí, pô!

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