A ideologia do bolso

É, no mínimo, ingenuidade acreditar que a VEJA faz oposição ao governo Lula por ideologia.

Os Civita, como os demais, querem dindim. Pagou, levou.

Nesse aspecto, a IstoÉ é mais honesta (não na acepção da palavra). Tripudia da alcunha “QuantoÉ”. Não tá nem aí. Faça uma busca pela internet que você encontrará “ene” histórias (inclusive, a própria VEJA já fez matéria sobre isso, com o objetivo de atingir a concorrente).

Pois bem. O cuspe caiu na testa. Um olhar atento sobre as duas últimas edições do carro-chefe do Grupo Abril coloca as coisas em seus devidos lugares, sem rodeios.

Preste atenção na “reportagem” do dia 13 (principalmente, em meus grifos) e no anúncio da edição do dia 20, na página mais cara da principal revista do País. E parem de ser tolos.

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REVISTA VEJA, Edição 2147, 13 de janeiro de 2010

Brasil

Alerta: colisão política à vista

A Aeronáutica prefere os aviões suecos Gripen na bilionária licitação
para renovar a frota de caças do país – e entrega um pepino voador
a Lula, que quer porque quer os franceses Rafale

Diego Escosteguy

NA MARRA
Lula e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, já acertaram a compra dos Rafale (à dir.): faltou combinar com a Aeronáutica, que insiste na opção sueca

ESCOLHA TÉCNICA
A Aeronáutica convenceu-se de que o caça Gripen (à esq.), além de ser mais barato, é o mais eficiente

Quando o presidente Lula retornar a Brasília nesta semana, depois de ter passado o recesso de ano-novo refrescando-se nas águas tranquilas da Praia de Inema, na Bahia, pousará sem paraquedas na primeira encrenca política de 2010. Os brigadeiros da Força Aérea finalmente encerraram a licitação para escolher qual modelo de caça substituirá a envelhecida frota do país – e fizeram o favor de optar pelo avião que o presidente não quer. Após meses de exaustivos testes em voo e de criteriosas análises tecnológicas dos caças Rafale, da França, F-18 Super Hornet, dos Estados Unidos, e Gripen, da Suécia, os militares decidiram-se pelo último. Trata-se de um investimento estratosférico: o governo pretende gastar cerca de 10 bilhões de reais na compra de 36 caças. São 10 bilhões de motivos para barulho, como ficou evidente na semana passada depois da revelação do relatório técnico da Aeronáutica. Para os militares, que tiveram o apoio sigiloso da Embraer, os aviões escolhidos constituem o melhor negócio porque são mais baratos, mais eficientes, gastariam menos quando fossem à oficina e, sobretudo, permitiriam a transferência integral de alta tecnologia à Força Aérea e também à Embraer. O único defeito: são aviões suecos, não franceses.

A divulgação do relatório da Aeronáutica, que ranqueou os caças, deixando o francês em terceiro lugar, exasperou a cúpula do governo. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, estava em Paris, de onde declarou que a compra é uma “decisão política” do presidente. “O barato às vezes sai caro”, acrescentou, recorrendo ao mesmo argumento dos vendedores de lojas de departamentos quando querem empurrar ao cliente uma geladeira de duas portas em vez de uma. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, foi mais diplomático. Pediu aos militares que refizessem o relatório final para que não contivesse um ranking, mas tão somente análises técnicas, de modo que o presidente não se sinta constrangido se fechar negócio com os franceses – desautorizando, assim, a Aeronáutica. A origem dessa confusão encontra-se na atitude inconveniente de Lula de anunciar a compra dos caças Rafale, em setembro do ano passado, antes que a Força Aérea tivesse terminado a avaliação técnica dos aviões. Inconveniente porque, embora a decisão final seja política, trata-se de uma concorrência internacional, com regras comerciais e critérios militares que precisariam ser obedecidos.

A preferência desabrida pelo Rafale explica-se, ao menos na superfície, pelo acordo militar que o país firmou no ano passado com a França. Nele, o Brasil entra com dinheiro e os franceses, com influência geopolítica e a venda de armamentos. Os diplomatas do governo Lula, antiamericanos até o último pelo de suas barbichas, acreditam que a França seja o parceiro ideal para bailar com o Brasil na corte das potências mundiais. No Itamaraty, espera-se, inclusive, que o bilionário dote pago aos franceses seja decisivo para que o país consiga um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, convite que consagraria a entrada do Brasil na elite do poder mundial. A primeira parte do acordo materializou-se quando o governo anunciou contratos militares com a França da ordem de 20 bilhões de reais, que incluem a compra do casco do submarino nuclear que a Marinha brasileira tenta construir há duas décadas, de submarinos convencionais e de helicópteros. O presidente Nicolas Sarkozy apareceu em Brasília no desfile do Dia da Independência, e Lula, mesmo sem a presença da hipnotizante primeira-dama Carla Bruni, encantou-se tanto com o charme francês que foi lá e bomba: anunciou que o Brasil compraria também os caças Rafale.

Na semana passada, com a ameaça de perder o negocião, os franceses reagiram. O ministro da Defesa da França, Hervé Morin, fez cara de quem comeu escargot estragado e indagou: “É possível comparar uma Ferrari, que é o Rafale, com um Volvo, que é o Gripen?”. Os militares brasileiros tiraram a Ferrari do meio da história. Para minimizar a crise e dar uma forcinha indireta para que o negócio vá em frente, o presidente francês defendeu publicamente o ingresso do Brasil no Conselho de Segurança. Sabe-se que as declarações de Sarkozy são insuficientes para que isso aconteça: a China se opõe fortemente ao pleito brasileiro. Ao fim desse folhetim, o Brasil pode ficar sem assento no Conselho e com um avião dispendioso demais para as necessidades do país, de acordo com quem vai de fato pilotá-lo. Ao contrário do que diz Amorim, é o caro que pode sair ainda mais caro.

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REVISTA VEJA, Edição 2148, 20 de janeiro de 2010

Anúncio da contracapa (!!!) da revista

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4 Comentários

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4 Respostas para “A ideologia do bolso

  1. famancini

    Apenas como ressalva, sem ‘puxar sardinha’ pra ninguém, a revista Carta Capital, que segundo minha opinião coaduna com os ideais governistas, principalmente lulistas, publicou em sua contra-capa da edição de 20/jan/10, de modo idêntico ao postado aqui, propaganda dos referidos caças suecos, preferidos da FAB.
    A discussão aqui recairia não mais sobre o anti-governismo às avessas da revista, mas sim sobre se a liberdade da mesma em publicar o que seus anunciantes se dispõe a pagar.
    Seria falta de ética a publicação de tal anúncio ou anti-democrático impedir sua veiculação?
    Até onde eu saiba, a democracia é fundamento para nosso modo de vida capitalista.

    • Imbroglione

      Famancini,
      A diferença está na permissividade de o comercial pautar o editorial.
      O que fiz foi lançar suspeição sobre a matéria da Veja. Simplesmente porque não duvido que essa ingerência tenha ocorrido. Se aconteceu de fato, há falta de ética e, principalmente, de vergonha na cara.
      Mas, como não sou idiota, também não duvido que a Carta Capital possa fazer isso em outras situações (por mais que respeite mais a segunda do que a primeira).
      Como eu disse no post, “os Civita, como os demais, querem dindim”.
      Obrigado pelo comentário.
      Abraço.

      • famancini

        Prezado Imbroglione,

        Acho que tudo isto é um repeteco daquela velhafrase ensinada no colégio ao se lecionar sobre a política imperial brasileira: “Nada mais conservador do que um liberal no poder”.

        Pra não discutirmos mais, concordemos: tudo farinha do mesmo saco (infelizmente).

        A propósito, além do Carta e dos Civitas, sou seu assíduo leitor.
        A diferença é que só de você sou fã incondicional: aprecio sua falta de ‘papas’ na língua e seu vasto saber a respeito dos (sub)mundos policiais.

        Ainda bem que continua por aí, aprontando das suas.

        Grande abraço.

      • Imbroglione

        É uma grande honra saber disso.

        Espero continuar agradando.

        Abraço.

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